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terça-feira, 3 de março de 2026

A Casa dos Beijos - Baptista Bastos

 A CASA DOS BEIJOS

 

            Iam os dois pela rua, de mãos dadas. Dir-se-ia que não pisavam o chão. Dir-se-ia que deslizavam, que voavam… A felicidade estava-lhes cunhada nos rostos e também nos gestos, nos sorrisos, no olhar. Iam de mãos dadas pela rua e iam muito felizes.

            Ela tinha os cabelos longos e soltos, o tronco alto. As pernas esbeltas e livres, saias curtas. Ele era um pouco mais alto, um pouco apenas, camisa aberta, calças de ganga, uma pequena mala, daquelas malas dos antigos guarda-freios da Carris, a tiracolo. Isso: a mala estava a tiracolo, e eles iam muito felizes, os dois de mãos dadas.

            Nem sequer reparavam que muitas pessoas os observavam. Algumas pessoas com a conivência de um sorriso. Outras pessoas com um ressaibo de inveja, no olhar de esguelha. Pararam um pouco em frente à Pastelaria Suíça, no Rossio, ele disse qualquer coisa a ela, ela encolheu os ombros. Não deixavam de sorrir enquanto conversavam. Depois entraram e beberam café.

            A esplanada Suíça estava cheia de sol e de estrangeiros. Um vendedor de lotaria ofereceu jogo. Um rapaz sujo pediu algum dinheiro. Dois homens encontraram-se e abraçaram-se efusivamente. Uma mulher apressada deu um encontrão num cego. Um cigano tentava vender relógios. Um polícia contemplava as coisas com evidente indiferença.

            O rapaz e a rapariga decidiram, depois de tomar café, passear pelo Rossio. Estavam muito felizes. E é bom que se repita isto, porque as pessoas, habitualmente, andam para aí cheias de infelicidade, ao menos que haja alguém feliz, mesmo que seja uma ou duas pessoas.

            Passeavam pelo Rossio e, de vez em quando, abraçavam-se, sempre sorrindo um para o outro como se estivessem a sorrir para todo o mundo, e todo o mundo experimentava uma grande sensação de espanto e júbilo. Paravam junto às montras do Rossio, olhavam claro, mas não fixavam nada do que nas montras se expunha, só sabiam um do outro, só estavam ali juntos para apenas estar um com o outro, juntos e assim mesmo: de mãos dadas.

            Foi numa dessas ocasiões. Abraçavam-se tão felizes, que essa felicidade molestou uma senhora obesa e flácida. A senhora obesa e flácida estacou, indignada, a fuzilá-los com as balas do ódio. E gritou:

            - Não podiam fazer isso em casa?

            A rapariga dos cabelos longos deixou o abraço a meio. O rapaz experimentou uma estranha sensação de pasmo. Olharam-se. E foi então que a rapariga respondeu, indicando tudo em derredor.

            - Esta é a nossa casa!

            Nesse instante trémulo, o mundo feliz, começou a aplaudir.

 

 

                                                                                                                          Baptista-Bastos

Lisboa Cantada pelos Dedos 

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