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quarta-feira, 28 de setembro de 2022

O cágado - Almada Negreiros

 


O Cágado

          Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito - um cágado.

O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.

O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. Quando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.

O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.

Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exactamente como uma vara perdida.

Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de facto submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.

- E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.

O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar. 

- Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!

Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte - a vontade.

Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.

A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida - já não tinha nem a certeza se era a quinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.

Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De facto, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.

Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.

Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efectivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.

Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.

Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de facto, mais continuação daquele buraco, parava exactamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exactamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada. 

Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! O cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?

Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. O sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...

Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe a sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.

Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com urna pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...

Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente - o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa. 

Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.

O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.

O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar;  curioso, quis ver porque  era - era o cágado.

 

In Contos e Novelas, José de Almada-Negreiros, 1970 Editorial Estampa


A Pereira da Tia Miséria

Havia no princípio do mundo uma velhinha muito pobre e muito infeliz: era conhecida pelo nome de Tia Miséria. Só possuía uma casinha arruinada e uma pereira no quintal. Tudo sofria com paciência e resignação, mas só uma coisa não desculpava, nem perdoava: que os meninos da vizinhança subissem na pereira e lhe comessem as peras. Seria capaz de dá-las todas sem provar uma, mas indignava-se contra os que as roubavam.

Uma noite bateu-lhe à porta um pobrezinho, quase morto de fome e pediu-lhe comida e guarida por uma noite. Fazia muito frio e a Tia Miséria acomodou-o perto do fogão e deu-lhe a migalha de pão que reservava para si. No dia seguinte, o pobre despediu-se e disse-lhe que pedisse o que quisesse.
- Só peço que as pessoas que subirem à minha pereira não possam descer sem o meu consentimento – respondeu a velhinha.
- Assim será – respondeu o mendigo.
No ano seguinte, quando estavam madurinhas as primeiras peras, Tia Miséria chegou ao quintal e encontrou três garotos em cima da pereira.
- Ó Tia Miséria, perdoe-nos pelo amor de Deus! Tire-nos daqui, que não conseguimos descer.
- Ah, é? Então vocês diziam que não eram os ladrões das minhas peras! Pois tomem isso e mais isso! Disse Tia Miséria, dando uma sova nos meninos com uma vara. Desta vez vou permitir que desçam, mas se voltarem, já sabem: hão de ficar aí por muitos anos!
E os garotos desceram e nunca mais voltaram à pereira.
Até que em uma noite chuvosa, bateram-lhe à porta.
- Já vou, já vou! Gritou Tia Miséria.
Era uma mulher de horrendo aspeto, vestida de negro, com as asas negras nos ombros e nos pés.
- O que... o que... quer? - Perguntou a Tia Miséria a tremer.
- Tenha uma boa e santa noite, Tia Miséria.
- Conhece-me? - Perguntou assombrada.
- Vamos, Tia Miséria. Chegou a sua hora.
Foi então que a Tia Miséria se apercebeu da foice debaixo da capa da estranha criatura. Nesse momento, deu conta de que tinha aberto a porta para a... ela mesma... a MORTE!
- Sou a Morte: venho buscar-te e estou com pressa.
- Já? Não podes ao menos dar-me dar um ano de espera?
- Não pode ser - respondeu a Morte.
- Então faz-me ao menos um último favor: sobe à minha pereira e colhe-me a última pera que me resta. Quero comê-la, visto que é a última. Enquanto isso, vou-me preparando para a partida.
- Tudo bem, mulher, mas despacha-te!
A Morte subiu à pereira, colheu a pera, mas não conseguiu descer. E pôs-se a chamar a velhinha. Esta respondeu: “Tem paciência, maldita, mas aí ficarás por todos os séculos. És má, tens feito muitas desgraças, a roubar muitos pais aos seus filhos pequeninos...”
E a Morte ficou em cima da pereira durante dias, semanas, meses.
- Por onde anda a morte? Perguntavam os velhinhos e os doentes terminais nos hospitais.
Depois de um ano, e depois de muita procura, Tia Miséria apercebeu-se, à frente da sua porta, de um grupo composto por padres que se queixavam de que não havia enterros e de médicos enfurecidos com o pouco profissionalismo da morte: uma coisa era alargar a vida, outra muito diferente era estender a dor. Ali estavam também escrivães e advogados que se lastimavam de não ter trabalho, de donos de funerárias que reclamavam da queda das vendas de caixões; enfim, eram todos aqueles que vivem da morte do próximo. Todos pediam à velha que autorizasse a Morte a descer da pereira, mas a Tia Miséria respondia: “Não quero, não quero e não quero”!
A Morte falou então do alto da pereira e fez um pacto com a velha: se a deixasse descer, pouparia a sua vida enquanto o mundo fosse mundo. A velhinha consentiu e a Morte desceu. Saiu a correr dali com a promessa de nunca mais bater à porta de Tia Miséria. Mas compensou o tempo perdido: nunca morreram tantos em tão pouco tempo.
É por isso que enquanto o mundo for mundo a Miséria existirá sobre a Terra.

domingo, 11 de setembro de 2022

O amargo encanto das direitas autoritárias - Enric González (El País)

Las democracias liberales encajan mal con el miedo. Y vivimos en una cultura del miedo. En el lado izquierdo se teme al cambio climático, por ejemplo. La nueva derecha, decidida a transformar los consensos forjados después de 1945 y a imponer “sin complejos” sus propias ideas, agita la amenaza de la inmigración masiva y la transformación de las llamadas “culturas nacionales” en mosaicos multiculturales incompatibles entre sí.

Políticos y medios de comunicación difunden continuas alarmas. Las redes propagan mentiras a la velocidad de la luz. La reciente presidencia de Donald Trump, con el apoteósico final del asalto al Capitolio, demuestra que incluso sistemas liberales tan asentados como el estadounidense pueden virar hacia el autoritarismo y la intolerancia.

Freedom House, una organización no gubernamental con sede en Washington dedicada a promover la democracia y los derechos humanos, asegura en sus informes que la libertad lleva 16 años disminuyendo en el mundo y cediendo posiciones frente al autoritarismo. En 1991 cayó la Unión Soviética y pareció que las democracias liberales habían triunfado. La impresión es ahora la contraria. Historiadores como Julián Casanova y Josep Maria Fradera coinciden en el diagnóstico: las autocracias avanzan y la derecha “ha vencido ya”. ¿Qué ha pasado?

La crisis financiera de 2008, la peor del capitalismo desde 1929, marca un punto de inflexión. El riesgo de colapso era tan grave que el presidente francés de la época, Nicolas Sarkozy, habló de la necesidad de “refundar el capitalismo”. Como es sabido, luego resultó ser el capitalismo el que siguió refundando todo lo demás. La onda expansiva de aquella crisis ha dejado tras de sí un escenario de ruinas. La izquierda tradicional quedó seriamente desarbolada: la socialdemocracia y el sindicalismo demostraron su impotencia ante la tormenta. “No se ofrecieron alternativas a la ley del mercado”, dice Casanova.

Desde 2008 se aceleraron los excesos del capitalismo: aumentaron las desigualdades, se normalizaron tanto los patrimonios inconcebiblemente gigantescos de los más ricos como la precariedad laboral de las clases medias y trabajadoras, y la globalización, que ya había desindustrializado parcialmente Estados Unidos y la Unión Europea, empezó a ser percibida en determinados sectores como un mecanismo fuera de control.

No tiene mucho sentido fijarse en Rusia. La agenda de Vladímir Putin fue autocrática desde el principio. La democracia liberal nunca tuvo la menor oportunidad en el país de los zares y los sóviets. Un mejor ejemplo sobre la evolución desde la democracia liberal (al menos en términos formales) a un sistema de rasgos autocráticos lo ofrece Hungría, un país integrado en la Unión Europea. Julián Casanova fue profesor de la Universidad Centroeuropea, con sede en Budapest, hasta 2017. Asistió de cerca a los acontecimientos.

Viktor Orbán, fundador del movimiento Fidesz (Alianza de Jóvenes Demócratas) en 1988, cuando aún existía la Unión Soviética, gobernó con un programa de estabilización política y económica entre 1998 y 2002. Al retornar al poder en 2010, con mayoría absoluta en el Parlamento, la crisis de 2008 azotaba las economías europeas y Orbán se había desplazado desde posiciones liberales a una ideología extremadamente conservadora y, según su propia definición, “iliberal”. La fragilidad económica europea generó un clima de miedo que abrió las puertas a las nuevas derechas en Francia, Italia, Alemania, Reino Unido y en la mayoría de las nuevas democracias excomunistas.

“Orbán no explotó el miedo a la crisis, sino el miedo a una inmigración masiva que destruyera la identidad nacional”, precisa Casanova. El porcentaje de inmigrantes en aquel momento apenas suponía el 5% de la población y en su gran mayoría eran de origen europeo. “Su agenda”, añade, “era claramente antisemita”.

Viktor Orbán enarboló una de las banderas tradicionales de la ultraderecha clásica, la de hace un siglo, una de las que el sociólogo hispano-estadounidense Juan Linz describió en su libro La quiebra de las democracias (1978): el antisemitismo. Ya en 1989, cuando colapsaron los regímenes comunistas europeos, amplios sectores de la sociedad húngara mostraban un recelo profundo hacia los judíos.

Orbán prefirió no ser muy explícito y canalizar implícitamente el antisemitismo general hacia una persona en particular, el multimillonario judío George Soros, a quien se atribuyeron diversas conspiraciones presuntamente encaminadas a la erosión de la nación húngara. El foco de la aversión gubernamental se dirigió a la Universidad Centroeuropea, fundada y financiada por Soros (quien, incidentalmente, había pagado la beca con la que Orbán estudió un año en Oxford); al final, la Universidad tuvo que ser trasladada a Viena.

“Las transiciones a la democracia desde el comunismo fueron muy rápidas y desordenadas, en sociedades que habían sufrido dictaduras muy largas y donde la tradición liberal apenas existía”, explica Casanova. Para el historiador, las invocaciones de la nueva derecha al “auténtico pueblo y a la unidad” arraigan fácilmente en esos países.

Y en otros. Es muy ilustrativo el titular del Daily Mail, el diario de las clases medias inglesas, después de que tres jueces dictaminaran que el gobierno de Londres no podía romper con la UE sin la autorización del Parlamento: “Enemigos del pueblo”, fue el titular, acompañado por las fotos de los tres jueces.

En la Europa occidental, España incluida, también funciona cada vez mejor el recurso político de atribuir a las izquierdas, a las élites o a Bruselas la condición de “enemigas de la patria” y de “fragmentadoras de la unidad nacional”.

Es lo que afirma Hermann Tertsch, antiguo periodista (en este periódico y en otros) y actual eurodiputado de Vox. “El discurso progresista va imponiendo el culto a la ecología, el miedo al cambio climático, la agenda neomarxista, la ideología de género, el animalismo, para ir fraccionando y dominando”, dice. Tertsch afirma que la Unión Europea se ha convertido en un “megaestado centralizador en manos de un sanedrín intocable al que nadie ha votado”. La Comisión Europea, sigue, “asume el discurso progresista y atenta continuamente contra la soberanía nacional de los países miembros”.

El sentimiento antieuropeísta no deja de crecer. “Es normal”, dice Tertsch, “la Unión Europea ha adoptado por completo la agenda socialdemócrata y actúa como si no existieran alternativas”.

El antieuropeísmo, sin embargo, aún no es electoralmente rentable, salvo en el Reino Unido. En 2017, Marine Le Pen concurrió a las elecciones presidenciales francesas con la propuesta (más o menos vaga, más o

menos explícita) de renunciar al euro y recuperar el franco como divisa nacional. El análisis de su derrota frente a Emmanuel Macron demostró que la frivolidad de sus discursos sobre la moneda había restado votos a la extrema derecha, o nueva derecha. En 2022, Le Pen acudió a las elecciones con la promesa de mantener el euro. Volvió a perder, pero ahora cuenta, a diferencia de cinco años atrás, con un nutrido grupo parlamentario en la Asamblea Nacional.

En una democracia liberal las elecciones periódicas representan solamente la guinda del pastel. Las elecciones, por sí mismas, significan poco, como se demuestra en Rusia o Turquía. Son necesarias una justicia y una prensa independientes y un nivel suficiente de aceptación del contrario, para que las transiciones de poder se realicen sin grandes sobresaltos e incluso, aunque el término resulte peyorativo para la nueva derecha, algún consenso ocasional para las grandes decisiones.

La evolución de la democracia liberal hacia la autocracia es, por tanto, simple: se impone el control gubernamental sobre la justicia, se nacionalizan o se entregan los grandes medios de comunicación a una oligarquía fiel al presidente y se demoniza a las ideologías rivales como “enemigas del pueblo”. Es el modelo húngaro, y en menor medida el adoptado en Polonia y Eslovaquia.

También es el modelo seguido por Donald Trump, aunque Estados Unidos sea una democracia más sólida: descalificó a los medios de información que no se alineaban con él (lo que publicaban eran “fake news”) y con sus nombramientos en el Tribunal Supremo decantó la justicia hacia la derecha por un largo periodo, ya que los miembros del Supremo son vitalicios.

Las nuevas autocracias, no atribuibles a una simple derechización (véanse los casos de Venezuela o Nicaragua, que se autodefinen como izquierdistas), pueden atraer inicialmente a buena parte de la población por sus reclamos populistas. En su libro El ocaso de la democracia, la ensayista conservadora Anne Applebaum destaca tres elementos. El primero, atribuir la responsabilidad de los problemas a la oposición o a un enemigo externo (los inmigrantes son utilísimos en ese sentido). El segundo, proponer soluciones fáciles: “Con frecuencia las personas se sienten atraídas por las ideas autoritarias porque les molesta la complejidad; les disgusta la división, prefieren la unidad”. El tercero, apelar a discursos pesimistas y en definitiva al miedo: “Estados Unidos está condenado, Europa está condenada, la civilización occidental está condenada. Y los responsables de ello son la inmigración, la corrección política, los transgénero, la cultura, el establishment [las élites], la izquierda y los demócratas”.

Por supuesto, este mecanismo no funcionaría si no contuviera elementos verdaderos o, al menos, verosímiles para grandes sectores de un país. No cuesta nada reconocer la hipocresía de las fuerzas progresistas respecto a la inmigración (se la defiende de boquilla, pero se la reprime en la frontera) o el alejamiento de las élites respecto a los problemas de la clase trabajadora (Marine Le Pen es hoy la dirigente más votada por los obreros franceses y algo parecido pudo decirse de Donald Trump).

Cuando Hermann Tertsch, de Vox, señala que el húngaro Viktor Orbán “quiere inmigrantes que sean parecidos a los húngaros y fácilmente integrables [descodificado, no musulmanes]”, dice algo extensible, aunque no se pregone, a cualquier país europeo. Recuérdese la acogida de los refugiados de la guerra de Siria, con una notable excepción en la Alemania de Angela Merkel, y compárese con la entusiásticamente dispensada a los refugiados de la guerra de Ucrania.

Cabe suponer que la actual crisis económica, disparada por la inflación (un fenómeno detonado por la paralización pandémica y multiplicado por la invasión de Ucrania y el encarecimiento del gas ruso), jugará a favor de las fuerzas autoritarias y populistas. Pero asoma otro factor, subrayado por el historiador Josep Maria Fradera, que complicará la vida a las democracias liberales: con la invasión de Ucrania por parte de Rusia y la revitalización de la OTAN se perfila de nuevo un mundo bipolar, no exactamente igual al anterior a 1989 pero muy parecido, con Estados Unidos y sus aliados de un lado, y con China y sus aliados (entre ellos Rusia) de otro.

No hace falta recordar los conflictos bélicos, golpes de Estado e intervenciones externas que jalonaron las décadas de la Guerra Fría (19491989). Como indica Fradera, la anterior crisis de las democracias liberales europeas no fue provocada por la derecha, sino por la aparición de grupos terroristas de izquierda en los años setenta, especialmente en Alemania, Italia y España, que cuestionaron tanto las instituciones como el alineamiento con Washington.

En un contexto bipolar, la simple percepción de que un Gobierno parece dispuesto a cambiar de bando o a evolucionar en un sentido inconveniente para la potencia hegemónica conlleva un severo castigo. Y las consignas se siguen al pie de la letra. En la última cumbre de la OTAN, en Madrid, se decidió incrementar sensiblemente el gasto en ejército y armamento, pese a que las fuerzas de la OTAN siguen siendo muy superiores a las fuerzas combinadas de China y Rusia. Sin contar con los arsenales nucleares, cuyo uso desembocaría en una aniquilación planetaria.

“Volvemos al doctor Strangelove [en referencia a ¿Teléfono rojo? Volamos hacia Moscú, la siniestra sátira de Stanley Kubrick sobre la Guerra Fría] y la nueva derecha está lejos de tocar techo”, dice Fradera. “La nueva derecha”, agrega, “condiciona y marca la pauta al resto de las fuerzas conservadoras”. Tanto él como Casanova consideran que “la derecha ya ha ganado” la batalla ideológica.


A busca da felicidade - Daniel Mediavilla (El País)

La búsqueda de la felicidad y una cierta insatisfacción con el mundo es parte de la vida humana desde que se tiene constancia. Desde Aristóteles o Epicuro a los modernos libros de autoayuda, el objetivo de estar bien ha ocupado a las mejores y las peores mentes de cada generación, y las religiones han prosperado ofreciendo una respuesta a un dolor omnipresente. Aunque el progreso en muchos aspectos materiales ha sido espectacular, algunos datos, que son el primer paso para corregir los problemas en el mundo gobernado por la razón, muestran que la solución a la angustia por existir no está cerca; incluso se aleja.

En España, en una tendencia compartida con casi todos los países occidentales, el consumo de antidepresivos se triplicó entre 2005 y 2015, y un estudio publicado en The Lancet estimó que, durante la pandemia, los trastornos depresivos se incrementaron casi un 30% en todo el mundo. Luis Caballero, jefe de sección del servicio de psiquiatría del Hospital Universitario Puerta de Hierro de Madrid, y Francisco Collazos, responsable del programa de Psiquiatría Transcultural de Vall d’Hebron, en Barcelona, coinciden en que, en los últimos años, se ha visto un incremento de casos de autolesiones y trastornos alimentarios entre los adolescentes, y también de consumo de alcohol y otras sustancias, agravado en la pandemia.

Ante este panorama, algunos expertos han mirado al pasado en busca de soluciones. Dos biólogos evolutivos, Bret Weinstein y Heather Heying, han publicado recientemente

Guía del cazador-recolector para el siglo XXI. Ambos consideran que es necesario prestar atención a la historia evolutiva humana para reducir los problemas de salud mental que aquejan a nuestra sociedad. Según ellos, los cambios tecnológicos y de estilo de vida en los últimos tiempos han sido tan rápidos que la capacidad de adaptación no ha podido seguir el ritmo. Para revertir el problema, habría que aceptar la verdadera naturaleza humana, desentrañada a través del estudio de su evolución. De ese estudio, extraen consejos propios de un libro de autoayuda: además de hacer más ejercicio o comer menos productos procesados, una forma de vida con más apoyo en la comunidad y en la vida tradicional sería más sana para nuestra mente.

En esta línea, algunos estudiosos de las culturas menos occidentalizadas del presente, aquellas que pueden parecerse más a la de los humanos prehistóricos, afirman que hay una menor prevalencia de enfermedades mentales como la depresión o la ansiedad, pero, como en todo lo que tiene que ver con la felicidad humana, la historia está llena de matices.

Francisco Giner, catedrático de Antropología de la Universidad de Salamanca, que ha estudiado grupos humanos con formas de vida “primitivas” en todo el mundo, reconoce que “hablar de felicidad en el ámbito académico asusta”, pero que en su equipo han tratado de “cuantificarlo en cierta medida a partir de una serie de componentes”, y han concluido que en estas tribus primitivas, eran “más felices” y tenían “una infancia menos competitiva que la nuestra. Haciendo balance, la enfermedad mental es casi inexistente y para categorías como la depresión ni siquiera tienen términos”, resume.

Sobre la presión social para amoldarse al grupo, Giner cuenta la historia de un hombre de la tribu Hamer, de Etiopía, que había ido a la universidad, pero mantenía su identidad tribal. “Me invitó a un rito en el que le entregaron una esposa elegida por su familia, y le pregunté si no hubiera preferido escogerla él”, recuerda. Él le dio una respuesta que puede parecer sorprendente para un occidental: “Mi familia conoce mejor a las jóvenes de mi cultura, y habrán elegido mejor de lo que yo lo hubiera hecho”.

Esta cesión de buena parte de la libertad en la familia, la tribu y la costumbre es señalada por otros expertos como un efecto protector. “Cuando hablas con pacientes procedentes de las antiguas repúblicas soviéticas, algunos echan de menos aquellos tiempos en que el guion te lo marcaba de una forma muy estrecha el Estado”, explica Francisco Collazos. “En nuestra sociedad, el discurso ultraliberal y la crisis de los valores tradicionales nos bombardean con la posibilidad de una vida plena. Pero después, en el día a día, esos sueños excesivos no se cumplen y eso alimenta una vivencia de fracaso”, explica.

Esfuerzo por integrarse

El psiquiatra, especializado en el tratamiento de personas inmigrantes, pone un ejemplo de casos clínicos en los que se ve la aceptación de un sistema. Tratando a estas personas, he visto que las que llegan a Madrid o a Barcelona desde un determinado país y siguen viviendo como si siguiesen allí, aislados en su propio entorno, tienen menos trastornos mentales que los que hacen un mayor esfuerzo por integrarse”, asegura. No obstante, Collazos reconoce que “no tendría mucho éxito aquel que abogara por una vuelta al pasado y te dijese: resígnate y renuncia a tu libertad”.

María Martinón-Torres, directora del Centro Nacional de Investigación sobre la Evolución Humana, en Burgos, acaba de publicar Homo imperfectus, un libro en el que explora la naturaleza humana a través de su historia evolutiva. La investigadora se considera sorprendida por la idea de que “ahora hay más estrés que antes”. La paleoantropóloga plantea que hay estudios que muestran que algunas poblaciones con estilos de vida primitivos no tenían estrés hasta que les ayudaron a verbalizarlo. Collazos coincide y relata su experiencia con pacientes de culturas menos occidentalizadas. “Es raro que me digan, doctor, tengo depresión. En muchas lenguas nativas africanas no existe ese término, pero igual te dicen: doctor, últimamente pienso mucho”, ejemplifica.

Luis Caballero cree que hablar de la mayor o menor prevalencia de trastornos mentales en sociedades primitivas o modernas es un planteamiento demasiado genérico y advierte ante la escasez de trabajos científicos fiables. “Son culturas diferentes con patologías diferentes. Las enfermedades relacionadas con infecciones, que después derivan en problemas psiquiátricos, son más frecuentes en las sociedades menos desarrolladas, y pasar hambre o no tener vacunas no puede ser una ventaja. La pobreza es un factor de riesgo claro en los trastornos mentales. Pero después, las exigencias de ambientes muy competitivos en sociedades muy competitivas pueden causar estrés a los niños y adolescentes”, reflexiona. Caballero, como el resto de expertos consultados, considera que es un campo en el que queda mucho por investigar.

La sensación del paraíso perdido parece algo inherente a la experiencia humana. Jared Diamond escribió que el abandono de la vida de caza y recolecta por la agricultura y la ganadería había sido el peor error de la humanidad. La nostalgia por el pasado no es nueva, pero no hay muestras de que los humanos completamente felices hayan existido nunca. Sin embargo, el conocimiento sobre cómo afectan los cambios tecnológicos y las transformaciones sociales a unos seres que evolucionaron en pequeñas bandas en la sabana africana es escaso. Un análisis de la naturaleza humana puede ser un camino para mejorar el bienestar mental que hoy muchos consideran demasiado lejano.