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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Escrever - Luís Ochoa

Hoje alguém pediu para se sentar numa cadeira vazia junto à mesa onde habitualmente  escrevo. Observou-me com uma curiosidade limpa, sem intrusão. Disse que reparava em mim muitas vezes. Que tem esta imagem minha: sempre o portátil aberto, os auscultadores, sozinho no meio de tanta gente. Perguntou-me por que razão passo tantas horas a escrever. Eu sabia responder. Mas escolhi ser diplomata. Sorri e disse apenas que escrever ajuda-me a organizar, a escutar melhor o mundo, a não o deixar passar por mim sem forma. Ele acenou, satisfeito com a resposta simples. Depois de um instante, talvez por perceber em mim que o que eu queria realmente era estar sozinho, levantou-se, despediu-se, e foi embora. 

Não lhe disse o resto.

Não lhe disse que escrever é uma questão de higiene. Não lhe disse que escrever não é vaidade nem ofício: é higiene da alma. Isso mesmo. 

Escrevo porque o mundo, tal como se apresenta, tornou-se excessivo. Demasiado para mim. Um ruído contínuo. Talvez uma espécie de feira de vozes onde ninguém escuta. Ou um mercado de intenções turvas onde a maledicência circula como moeda corrente. Escrevo porque permanecer demasiado tempo exposto a esta confusão produz náusea. Não a náusea filosófica de existir, mas a náusea concreta de conviver com gestos pequenos, palavras sujas, comportamentos que se alimentam da intriga como os vermes da carne.

Escrever é, para mim, uma forma discreta de sair do mundo. Não uma fuga espetacular, não um abandono teatral, mas um afastamento silencioso, quase monástico. Um recuo estratégico. Como quem fecha a janela para não ouvir a rua, mas que mantém a casa viva por dentro.

Lembro-me então do “Sermão de Santo António aos Peixes”. Não como peça de retórica barroca apenas, mas como gesto extremo de lucidez. Falar aos peixes porque os homens já não escutam. Louvar criaturas mudas para denunciar criaturas falantes. E sobretudo aquela frase que atravessa os séculos com a dureza de uma lâmina: “Oh Peixes, trato e familiaridade com eles, Deus vos livre!”. 

Não é misantropia. É diagnóstico.

Quanto mais íntimos dos homens, mais evidentes se tornam as suas fissuras: a inveja disfarçada de zelo, a crueldade vestida de humor, a vaidade mascarada de opinião. O convívio prolongado revela que muitos não falam para comunicar, mas para ferir; não escutam para compreender, mas para responder; não pensam para procurar verdade, mas para justificar o que já decidiram odiar.

Há uma fauna moral que prolifera à superfície do mundo: gente que vive da suspeita, da calúnia subtil, do prazer viscoso de diminuir o outro. Não mordem. Mas beliscam. Não matam. Mas envenenam lentamente. E chamam a isso convivência. Chamam a isso debate. Chamam a isso normalidade.

Por isso, escrever é também uma aproximação a algo superior, ainda que sem nome religioso. Quanto mais longe dos homens em turba, mais perto de uma verticalidade interior. Não porque os homens sejam irredimíveis, mas porque o coletivo, quando perde a consciência, torna-se cruel por inércia. A multidão dispensa ética; o indivíduo ainda pode escolhê-la.

No papel, e só enquanto escrevo, os homens não me interrompem. Não competem. Não distorcem. As palavras são silêncios puros a fluírem como a água límpida.  As metáforas não pedem autorização. Escrever permite-me reorganizar o caos, filtrar o lodo, devolver sentido às coisas que o mundo trata com brutal ligeireza.

Se Santo António escolheu os peixes, eu escolho as frases. Eles (os peixes) não o traíram. As frases, quando bem tratadas, também não. Os peixes não tinham malícia. As palavras, ao menos, podem ser purificadas pelo rigor.

Escrevo porque não quero aprender a gritar.

Escrevo porque me recuso a afinar a voz pelo tom da turba.

Escrevo porque a saúde mental exige distância. E a distância exige linguagem.

E se isto for solidão, que seja.

Há solidões mais habitáveis do que certas companhias.

Luís Ochoa